sábado, 6 de junho de 2020

A TRISTEMENTE CÉLEBRE 'GUERRA COLONIAL' (57)



MERCADO SEMANAL DE BUCO ZAU

No lado direito da Foto vêem-se duas ou três casas pintadas de branco. Era aqui que moravam três senhoras brancas de que dei nota no dia (52) desta minha história. Senhoras estas que eram esposas dos chefes máximos do Batalhão: Comandante, 2º Comandante e Capitão de Operações; o que significa que durante a noite a CCS do Batalhão ficava entregue ao Oficial de Dia, ou de Noite mais propriamente. Já aos fins de semana alguém as trazia para Bata Sano. Um dia, era sábado ou domingo, as senhoras chegaram quando eu estava de serviço. O Posto de Rádio era em frente a elas, mas num plano superior. Pousei os auscultadores e sentei-me. Elas não me viam, mas eu via-as perfeitamente.
Rapaz jovem, carente de tudo e mais alguma coisa fiquei contemplando as ditas senhoras, até que, chegada a hora do maldito Miruim atacar, uma delas tratou de ir buscar o repelente. Como não viam ninguém à volta estavam à vontade. Passaram o repelente na cara, nos braços e, levantando as saias também nas pernas. Fiquei hipnotizado de tal forma que, só quando “acordei” é que me apercebi que uma mosca tzé-tzé me tinha ferrado (estava em calções), deixando um fio de sangue a escorrer pela perna abaixo obrigando-me a seguir directo para o Posto Médico.
Nota: A picada da mosca tsé-tsé (Glossina palpalis) provoca sono porque transmite um parasita chamado Trypanosoma brucei. É este protozoário que leva a pessoa a um estado de torpor e letargia.Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 500 mil pessoas, principalmente da região subsaariana da África, são infectadas anualmente pelo parasita. Quatro em cada cinco doentes acabam morrendo depois de apresentar sintomas como fadiga, tremor, febre alta, dores intensas e convulsões.




sexta-feira, 5 de junho de 2020

A TRISTEMENTE CÉLEBRE 'GUERRA COLONIAL' (56)




MENINA DO MAIOMBE
"...Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma..."
Sophia de Mello Breyner Andresen



quinta-feira, 4 de junho de 2020

A TRISTEMENTE CÉLEBRE 'GUERRA COLONIAL' (55)



As colunas militares de e para Cabinda eram bi-semanais. Neste entretanto a vegetação do Maiombe aproveitava e recuperava os caminhos abertos pelas viaturas.
Havia no entanto alguns militares que, com umas viaturas especiais, voltavam a repor "essas vias" tão importantes para a nossa sobrevivência. Se a correspondência chegava às nossas mãos e repunha o importantíssimo equilíbrio psicológico, já os bens alimentares congelados (peixe e carne) chegavam a maioria das vezes podres.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

A TRISTEMENTE CÉLEBRE 'GUERRA COLONIAL' (54)


A 'pancada' foi realmente muito forte, ainda por cima não tive lugar na enfermaria, mas, médico e enfermeiros trataram muito bem de mim durante os dias em que não me podia sequer levantar. Também o grande amigo Faria e não só, tudo fizeram para que eu conseguisse comer algo, mas como a alimentação era péssima, traziam-me a sua ração de fruta.
Quando por fim me levantei e fui ao espelho, não gostei do que vi. 
Os dois paludismos anteriores foram como que uma 'brincadeira' comparados com este no coração do Maiombe.
Com o pouco dinheiro que me restava (os senhores do Quartel General tiveram, mais uma vez, a amabilidade de não transferir os nossos vencimentos) consegui ir uma ou outra vez ao Bar comprar leite com chocolate, mas depressa deixei de ir (convém não esquecer que, quanto pior era o rancho, melhores era os produtos à venda na Cantina ou no Bar), quase sempre foi assim. Estava magríssimo, sentia que precisava de vitamina C. Uma ou outra laranjeira, ou algo parecido, que se avistavam da parte de fora do aquartelamento estavam completamente verdes, mesmo assim não resisti. Como as árvores eram pequenas, deu para colher algumas que sempre ajudaram à minha recuperação.
Nas fotos que tirei a seguir estava sempre com camisa de mangas descidas e apertada até cima, para disfarçar a magreza.
 
 

terça-feira, 2 de junho de 2020

A TRISTEMENTE CÉLEBRE 'GUERRA COLONIAL' (53)



Como se pode ver na Foto as instalações de Bata Sano não eram más. Para além do que a foto nos mostra havia ainda a área de balneários. Mas o que aqui havia de mau, muito mau mesmo, era a temperatura quase irrespirável; todas as manhãs e fins de tarde avistava-mos uma 'nuvem cinzenta' vinda da densa mata, que outra coisa não era senão uma imensa massa de mosquitos muito pequeninos, tão pequeninos que não os enxergava-mos; eram do tamanho dos poros da nossa pele. Quando sentia-mos o corpo a arder passava-mos a mão e saía algo parecido com pó escuro. Depressa me fui abaixo. Febre altíssima e falta de forças assinalaram a chegada do terceiro paludismo (Malária) em Angola.
Continua

segunda-feira, 1 de junho de 2020

A TRISTEMENTE CÉLEBRE 'GUERRA COLONIAL' (52)



Buco Zau era realmente uma comunidade nativa devidamente organizada, com 'Soba' (Autoridade Local) e tudo. Lá residiam também três senhoras brancas guardadas por um ou dois militares (em breve falarei disto). Mas, o Batalhão ao qual fiquei adido situava-se em Bata Sano, bem no coração da Mata do Maiombe.


domingo, 31 de maio de 2020

A TRISTEMENTE CÉLEBRE 'GUERRA COLONIAL' (51)


Quinze horas depois de chegar-mos a Cabinda, vamos finalmente pelo Maiombe adentro. As viagens eram sempre de noite (vá-se lá saber porquê).
A picada era estreita e estava enlameada, a floresta era de tal maneira densa que as árvores se entrelaçavam, restava apenas o estreito caminho que as viaturas abriam.
Foram mais dez horas de algo difícil de recordar.

5ª TERTÚLIA A 02 DE JULHO

5ª TERTÚLIA A 02 DE JULHO
COM A ARTE NO OLHAR