Mostrar mensagens com a etiqueta memórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta memórias. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 28 de julho de 2009

OS DIAS DE CUIMBA (FIM)

.
MEMÓRIA
.
ENTRELINHAS DE UMA MEMÓRIA
.
OS DIAS DE CUIMBA 12
.
Chegado o dia, eis-nos de volta. A viagem até São Salvador parecia-me agora mais curta e divertida. Fomos directos ao pequeno aeroporto onde um Nord-Atlas (avião de carga da Força Aérea Portuguesa concebido para operar em pistas de pequenas dimensões) nos esperava. Era também “baptismo de voo” para a maioria de nós e o contentamento era geral.
O avião vinha carregado de viaturas e outro equipamento militar, os bancos em lona estavam recolhidos, viajávamos em pé e isso serviu para aumentar a boa disposição.
Sessenta minutos depois descíamos sobre a capital. Estavam de volta as cores e o bulício da cidade, para trás ficava a primeira experiência em selva angolana.
.
FOTO - JOSÉ BREGIEIRO
.
Procurei na Wikypédia e encontrei a Cuimba dos dias de hoje, ou seja, quarenta anos depois da minha comissão de serviço.
É agora Vila de Cuimba, tem Escola, Bar-Hotel, Padaria e Monumento ao Presidente da República. A casa que habitei é agora sede da Administração Municipal.
Na Capela está ainda bem patente a violência da Guerra Civil (1977-2002).
As fotografias são de 2005 e estão assinadas por José Francisco Tavares
.
.
.


.
.
.

.


FIM
.
(Voltarei às minhas memórias)

domingo, 26 de julho de 2009

OS DIAS DE CUIMBA

.
MEMÓRIA
.
ENTRELINHAS DE UMA MEMÓRIA
.
OS DIAS DE CUIMBA 11
.
Ansiosamente aguardávamos pelos substitutos, mas da capital não chegavam notícias. Restava-nos esperar.
Esta espera permitiu-nos viver um dia diferente.
Aconteceu que no dia 31 de Julho fomos brindados com um espectáculo de variedades. A azáfama foi grande, tínhamos que receber condignamente quem, correndo riscos, vinha até nós para nos proporcionar um dia de alegria.
À frente do elenco, o saudoso humorista português Humberto Madeira. Acompanhavam-no três artistas de Angola, além da bem conhecida locutora angolana Ruthe Soares. (Por motivos profissionais, voltaria a encontrar esta senhora 30 anos depois, então a viver no Porto).
Vale a pena contar aqui um pouco da enorme emoção vivida naquele dia, começando por dizer que aquelas eram as primeiras mulheres que me era dado ver após sete meses de isolamento. Só quem tenha vivido situação idêntica poderá aquilatar da emoção a que me refiro.
.
.
+ NA PRIMEIRA FILA Á ESQUERDA O CAPITÃO DE OPERAÇÕES DO 782
MORRERIA ALGUNS DIAS DEPOIS DURANTE UMA OPERAÇÃO DE RECONHECIMENTO
.
O recinto preparado para o espectáculo estava cheio!
Vieram militares das outras companhias, a animação era geral e a festa prometia. As primeiras filas foram ocupadas pelos oficiais e sargentos, só depois as praças. O espectáculo decorria em clima de grande alegria e descontracção. Aplaudíamos calorosamente a actuação de uma das cançonetistas quando um jovem alferes se aproximou do palco, na mão levava um pequeno ramo de flores silvestres, a jovem agradeceu o gesto retribuindo com dois beijinhos.
Vendo isto, alguns dos assistentes saíram de mansinho, foram em busca das milagrosas mas raras florinhas. Não estranhei, por isso, que, ao regressarem, na mão trouxessem pouco mais que capim. Apesar disso, a fila dos “candidatos” foi crescendo, e sempre que acontecia um intervalo avançavam tentando a sorte.
.
.
A COMITIVA POSANDO NAS ESCADAS DA NOSSA CASA
(quase que ficava fora da fotografia...rsrsrs)
.
A confusão estava instalada (saudável confusão!), as incrédulas mas sorridentes senhoras esforçavam-se por corresponder a tanta “amabilidade”, tornava-se no entanto imperioso repor a normalidade e dar continuidade ao espectáculo. Seria o próprio comandante a impor serenidade aos jovens e acalorados oficiais. A festa terminou já a tarde se aproximava do fim, era tempo da simpática comitiva regressar a Luanda. Concederam-nos, no entanto, um tempinho para as fotografias da praxe.
Dias depois chegaram finalmente as notícias que tanto esperávamos. A ordem era de “arrumar as malas”, ou seja, o posto de escuta situado em Cuimba era extinto. Deveríamos encaixotar todo o equipamento, por forma a regressarmos a Luanda no dia 7 de Agosto.
Nunca uma tarefa nos deu tanto prazer.
.
Continua

sexta-feira, 24 de julho de 2009

OS DIAS DE CUIMBA

.
MEMÓRIA
.
ENTRELINHAS DE UMA MEMÓRIA
.
OS DIAS DE CUIMBA 10
.
Ainda sobre estes “valentes” soldados do 782, não resisto a contar uma das peripécias mais hilariantes que vivenciei em Cuimba.
Os postos de sentinela ou de reforço tinham uma cama instalada para serem ocupados por dois soldados sempre que nos chegassem suspeitas de possíveis ataques ao aquartelamento. Nessas noites apagavam-se todas as luzes, ficava escuro como breu e ninguém via ninguém.
A ideia era que os dois homens se revezassem (enquanto um vigiava, o outro descansava), tornando-os assim mais confiantes.Naquela noite ouvimos alguém gritar bem alto por socorro, parecia-nos mais do que uma voz soando nas imediações da nossa casa. Levantámo-nos de supetão, ao mesmo tempo que nos interrogávamos: o que poderia ter acontecido? Abrimos a porta na tentativa de descobrir algo, mas a escuridão era total.
.
.
Foto: José Mesquita
.
Nada se viu, nada mais se ouviu e a normalidade voltou. Na manhã seguinte nem foi preciso indagar, já que era o tema das bem humoradas conversas à mesa do pequeno-almoço.
Terá acontecido que dois “maçaricos” de vigia estavam superassustados. O que àquela hora descansava adormeceu, no seu subconsciente o medo mantinha-se, sonhou que estava a lutar com um “turra”, rolou e caiu da cama. Estava confuso, traumatizado pela queda e não sentia o braço sobre o qual dormira.
Por sua vez, o soldado de vigia não via nada ao seu redor, mas ouviu muito bem o colega cair e gritar que lhe tinham cortado um braço…
Tomados pelo pânico, desorientados na escuridão, aos dois “valentes” sentinelas nada mais ocorreu que abandonar o posto e gritar por socorro.Lentamente, a vida em Cuimba voltou à rotina habitual. Os meus escritos apenas salientam que as colunas do 782 se esqueciam sistematicamente do nosso correio.
.

.
Este facto causava-nos algum desconforto, desconfiávamos até que poderia ser intencional, dado que os homens do novo Batalhão não encaravam com naturalidade o facto de a equipa da escuta ser autónoma, não integrar a escala de serviço, nem tão-pouco comparecer na formatura para as refeições.
A 26 de Junho comemora-se o dia da Cavalaria e tal facto constituiu uma salutar “pedrada no charco” na apatia do 782.
O avarento comandante decidiu celebrar condignamente o dia da sua Arma. Abriu os cordões à bolsa e, ao almoço, fomos agradavelmente surpreendidos com a ementa: nem mais nem menos que leitão e batatas fritas.
Foi o que se pode chamar um “bodo aos pobres”, mas logo retornámos à normalidade, ou seja, à má alimentação.
A nós, homens da escuta, restava-nos a satisfação do dever cumprido, dado estarem já ultrapassados os seis meses da missão. Alegrava-nos também o facto de o capitão Guerreiro ter regressado a Luanda.

.
Continua




quarta-feira, 22 de julho de 2009

OS DIAS DE CUIMBA

.
MEMÓRIA
.
ENTRELINHAS DE UMA MEMÓRIA
.
OS DIAS DE CUIMBA 9
.
Passados os primeiros momentos, abri a porta de casa na tentativa de ver o que realmente se passava e o que vi era digno de um filme de acção. As armas “cantavam” de todos os lados, as luzes estavam acesas e no ar pairava uma atmosfera de guerra. De repente surgem dois vultos correndo na minha direcção, empurram-me e entram de chofre, fechando a porta atrás de si. Só então vi tratar-se dos nossos sargentos, que, lívidos de medo e de arma na mão, vinham ocupar os seus abrigos.Acabei por fazer o mesmo, peguei na MAUSER e corri para o abrigo que me estava destinado. Era atrás de uma coluna da varanda mas estava já ocupado pelo sargento Ramos (o abrigo dele era precisamente ao lado).
.
.
Cadaval, Simão e Gaspar
.
Aos empurrões, reivindiquei o meu lugar, mas ele resistia e clamava, chorando, “ai os meus filhinhos”.
Acabámos por compartilhar a protecção do mesmo abrigo, a eterna dúvida a bailar na minha mente: se “isto” for verdade, deverei ou não disparar?
Felizmente, não vi vulto nem “turra”. Ainda não foi dessa vez que a velha MAUSER entrou ao serviço.
A “coisa” durou cerca de uma hora e foi o suficiente para mais uma noite em claro.
Quando o dia amanheceu, entrou em acção o Pelotão de Reconhecimento. Embrenharam-se na mata, bateram as cercanias, mas nada foi encontrado. Dizia-se que os “turras” não deixavam ninguém para trás, mas se nem sequer manchas de sangue foram avistadas…(?!)
.

.
Logo eu que sou antitabagista...!?
.
Por outro lado, no acampamento não faltaram motivos de galhofa ao verificarmos que os abrigos, constituídos por sacos cheios de areia, estavam transformados em “passadores”, tantos eram os orifícios de bala.
A explicação é simples: transidos de medo, os soldados protegeram o mais que puderam a cabeça, disparando às cegas, sujeitos até a que algum projéctil fizesse ricochete e vitimasse o valentão.

.
Continua


segunda-feira, 20 de julho de 2009

OS DIAS DE CUIMBA

MEMÓRIA
.
ENTRELINHAS DE UMA MEMÓRIA
.
OS DIAS DE CUIMBA 8
.
Também a alimentação passou a ser pouca e má. O esquema era simples e acontecia com frequência. Alguns comandantes roubavam parte do dinheiro destinado à alimentação. Contavam, para isso, com a colaboração dos furriéis que nomeavam para o cargo de vagomestre.
Pretendendo agradar ao chefe, estes procuravam poupar o mais possível por forma a, mensalmente, depositarem nas suas mãos o dinheiro sobrante. Tive conhecimento de casos em que o comandante, não satisfeito com o “trabalhinho”, substituía o vagomestre e mostrava ao recém-nomeado as contas da administração anterior pedindo-lhe, inclusive, que se aplicasse para subir aqueles números.
.
.
A equipa da Escuta
.
Não admirava, por isso, que a alimentação tivesse piorado tanto, além de que os cozinheiros do 782 se mostravam desprovidos de jeito para o desempenho das suas funções.
Havia agora fome em Cuimba. A solução era tentar na cantina algo para comer. Cantina que era também administrada pelo comandante e onde, “curiosamente”, sempre encontrávamos à venda o que nos faltava no refeitório...
Por vezes chegavam até nós informações via Polícia de Informação e Defesa do Estado (a famigerada PIDE) alertando-nos para a possibilidade de, em determinadas noites, recebermos a indesejada visita dos “turras”.
Sempre que tal sucedia, apagavam-se as luzes do acampamento e reforçavam-se as sentinelas.
.
.
No dia em que encontrei em Cuimba um companheiro dos bancos da Escola
.
Suspeitas que quase sempre não passavam disso mesmo, mas que bastavam para nos deixar com os nervos em franja. Só que agora o Batalhão era novo e algo desastrado, teríamos de levar mais a sério essas denúncias, era agora maior a possibilidade de tal vir a acontecer.
Curiosamente, na noite de 6 para 7 de Junho não houve qualquer alerta. Teriam os “turras” descido a serra? Digo teriam porque não enxerguei nenhum. Admitindo que assim foi, teriam vindo para matar? Ou apenas para roubar alimentos, como tinha acontecido com outras companhias?
Não cheguei a saber.
Convictos de terem observado vultos no capim, os sentinelas dispararam as metralhadoras, levando a que os restantes militares pegassem nas armas e corressem para os abrigos. Não terão visto nada, mas despejaram os carregadores.
.
Continua

sábado, 18 de julho de 2009

OS DIAS DE CUIMBA

.
MEMÓRIA
.
ENTRELINHAS DE UMA MEMÓRIA
.
OS DIAS DE CUIMBA 7
.
A chegada aconteceu a 12 de Junho e gerou grande alvoroço.
Os “velhinhos” do 670 foram recepcionar os “maçaricos” à entrada do aldeamento com saudações de grande “cortesia…”
Eu explico:
Fazia parte do nosso fardamento um pequeno boné em tecido camuflado que denominávamos por “Quico”. Era uma peça do atavio que todos roubávamos a todos. A maioria dos “maçaricos” respondia à saudação com o “Quico” posto e a cabeça fora das viaturas… À medida que recebiam as boas-vindas, ficavam sem ele… Poucos terão escapado a este gesto de boa vontade. Zangado estava o segundo-comandante, não achara graça ao atrevimento e reclamava o “Quico” de volta.
Durante cerca de uma semana conviveram em Cuimba os dois batalhões. Era tempo da passagem de testemunho. As instalações ficaram acanhadas para tanta gente e a comida teve de ser repartida por todos.
.
.
FINGINDO DE OPERACIONAIS
DA ESQUERDA PARA A DIREITA: CADAVAL, FARIA, JOÃO E GASPAR DE JESUS
.
Foi com um misto de pena e satisfação que nos despedimos e desejámos boa sorte aos amigos do 670.
Sabíamos também que, durante o período de adaptação dos novos militares a Cuimba, teríamos de ser cautelosos. E não nos enganámos.
Depressa se revelariam desastrados no manejo das armas.
Era muito comum naquela zona de Angola encontrarmos jibóias (serpentes), cuja dimensão em estado adulto pode atingir os quatro metros e meio. Este “bichinho” pode facilmente engolir um homem depois de o asfixiar (recebemos até instruções sobre a forma de usar a faca de mato caso fôssemos atacados por aquele que é considerado o maior réptil de África).
.

.

Poucos dias após a chegada do 782, alguns soldados foram alertados pelo ganir aflito de um cão na periferia do aquartelamento, correram naquela direcção e depararam, espantados, com a serpente a engolir o pequeno animal.
Um deles correu à caserna e regressou de arma em punho, a intenção seria matar a jibóia, mas o primeiro a morrer foi o companheiro que estava na sua frente.
Também nos postos de vigia a falta de jeito para lidar com armas se manifestava. Sempre que uma ou outra rajada de metralhadora ecoava no aldeamento, já sabíamos que eram os rapazes a experimentar o material...
Os riscos eram bem evidentes. Por via disso, nunca mais passei por perto de um posto de vigia em Cuimba.





quinta-feira, 16 de julho de 2009

OS DIAS DE CUIMBA

.
MEMÓRIA
.
ENTRELINHAS DE UMA MEMÓRIA
.
OS DIAS DE CUIMBA 6
.
.
ALGUNS DIAS ANTES DE IR À MÁQUINA ZERO
.
. No início de Maio, a equipa de escuta foi surpreendida com a substituição do capitão Oliveira; o substituto, de apelido Guerreiro, era de estilo arrogante e pouco adequado à realidade de um cenário de guerra, destoando nitidamente dos seus pares no Batalhão 670. Acabou-se a boa vida, passámos a trabalhar das sete da manhã até à noite. Antenas novas, pintar, caiar, capinar (cortar o capim) para aí criar uma horta, etc., etc., etc. Acabaram-se as folgas, andávamos exaustos, com as mãos em ferida de tanto trabalho, mas ele achava sempre que fazíamos pouco.
A 9 de Maio, o Batalhão comemorou o primeiro aniversário da sua chegada a Angola.

.
.
A MEIO DA MÁQUINA ZERO - UMA BRINCADEIRA COM O CADAVAL
.
Rezam os meus escritos que houve festa rija e que, ao almoço, os oficiais degustaram – imaginem! – lagosta e leitão assado. Para os sargentos houve churrasco à brasileira, enquanto nós nos deliciámos com o belo bacalhau cozido com batatas e hortaliça. Um menu destes em cenário de guerra pode parecer algo irreal, mas aconteceu em Cuimba com o Batalhão de Caçadores 670.
Falta dizer que o álcool corria à vontade, e que, no fim do repasto, metade do pessoal estava bêbedo...
Terá sido para nós uma sorte os “turras” não terem descido a serra.

.

.
DEPOIS DA MÁQUINA ZERO
.
Acontecia também que, de vez em quando saía para a mata uma equipa de caça. Quase sempre voltava de mãos vazias, mas no dia 6 de Junho os homens regressaram com uma enorme pacaça (boi selvagem). Este troféu gerou grande contentamento em Cuimba e contribuiu para um acréscimo de qualidade no já de si excelente cardápio dos “Fronteiros da Canda”.
Atingidos os 13 meses de isolamento, com a sanidade mental dos militares a entrar perigosamente no vermelho, chegou finalmente a notícia que mais ambicionavam. Os seus substitutos já estavam em Luanda! Era por isso uma questão de dias.
Os substitutos eram os homens do Batalhão de Cavalaria 782, constituído maioritariamente por alentejanos e algarvios.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

OS DIAS DE CUIMBA

.
MEMÓRIA
.
ENTRELINHAS DE UMA MEMÓRIA
.
OS DIAS DE CUIMBA 5
.
.
O adensar das suspeitas centrava-se nos homens do serviço de Intendência, cujas tarefas, por vezes desagradáveis, mas necessárias ao bom funcionamento do Batalhão, eram praticadas com alguns laivos de crueldade. Apesar disso, fazíamos questão de as presenciar, como forma de quebrar a rotina do dia-a-dia.
A sempre emocionante chegada do gado bovino e o seu encerro eram momentos de grande adrenalina a que não resistíamos. Também nos dias de abate acontecia juntarmo-nos vários militares, desta vez na esperança de conseguirmos um ou outro pedaço do bicho: fígado, coração ou rins, sempre davam para confeccionar um petisquinho a que juntávamos alguns pedacinhos de testículo sempre que animal era inteiro. Temperávamos depois com o tradicional “gindungo” e um pouco de cerveja angolana. Confeccionada por nós, esta era uma iguaria de que ainda hoje tenho saudade.
.
.
Mas era no dia do abate das aves que o sadismo de alguns soldados mais denunciava a possível insanidade mental.
A “coisa” funcionava em regime de apostas.
Cada apostador depositava na mão do “caixa” uma quantia previamente estipulada, de seguida pegava num frango e ocupava o seu lugar ao longo da linha de partida. Pescoço da ave na mão esquerda, na direita um canivete afiado. À voz de comando, todos os pescoços eram cortados e as aves atiradas para a frente. Já mortos, com o sangue a jorrar para todos os lados, os animais percorriam alguns metros sob os “gritos de incentivo” dos seus algozes, até se quedarem exangues. Era agora altura dos apostadores, de olhar atento, recorrendo se necessário à fita métrica, encontrarem o vencedor desta maquiavélica corrida.
Tornavam-se também frequentes as discussões e zangas que por vezes chegavam a vias de facto, obrigando à intervenção do comandante. Este, por sua vez, chamava os contendores, lia-lhes o R.D.M. (Regulamento de Disciplina Militar), informava-os sobre a gravidade do acto, a dimensão da pena e o quanto isso viria a prejudicar a sua vida futura.
Acredite-se ou não, todos preferiam trocar a pena por um bom par de bofetadas! Como vivia paredes meias, ouvia perfeitamente o desenrolar do diálogo, bem como o seu desfecho.
Ficou por isso célebre a frase que todos temíamos: “Entra e fecha a porta…”
.
.
Da esquerda para a direita: João, Gaspar de Jesus. Faria e Cadaval
Uma amizade com 45 anos
.
Apesar disso, não tenho dúvidas de que era um grande comandante!
Passo a explicar.
Uma vez que o voleibol era o seu desporto favorito, providenciou a construção do recinto para o efeito e a constituição da equipa de que era o capitão. Um dia chocou com um colega e caiu, daí resultando várias escoriações nas pernas e braços. Esteve vários dias sem sair de casa. O soldado interveniente no lance mostrava-se culpado e temia o castigo. Sabedor disso, o comandante mandou-o chamar para lhe dizer que não estivesse preocupado, que ele não tinha culpa, que quem anda à chuva molha-se, etc.
Algum tempo depois providenciou a construção de uma mini-piscina. Quando o dia da inauguração chegou, alguns oficiais posicionavam-se para, conjuntamente com o comandante, serem os primeiros a mergulhar, mas do alto da sua imponente figura (chamávamos-lhe Jack Palance), o comandante sugeriu que fossem os seus construtores a inaugurar a obra.
Outra das facetas é que, sempre que lhe era possível, deslocava-se a Luanda para visitar a família e por mais de uma vez regressou acompanhado de algumas caixas de sardinhas que muito contribuíam para perfumar de odores e sabores o nosso almoço. Posso também acrescentar que em Cuimba, e durante a vigência do BC670, encontrei a melhor alimentação servida pelo Exército português.


sábado, 11 de julho de 2009

OS DIAS DE CUIMBA

.
MEMÓRIAS
.
ENTRELINHAS DE UMA MEMÓRIA
.
OS DIAS DE CUIMBA 4
.
..
Quando tudo terminou e regressei aos meus aposentos, estava de rastos. Sentia-me doente. Decidi deitar-me. Sentia febre à mistura com arrepios de frio. Mão amiga ainda tentou que eu ingerisse algum alimento, mas não fui capaz.
Os corpos dos oficiais médicos foram depositados em urnas chumbadas, por forma a serem enviados para a Metrópole.
Salazar só fazia regressar os corpos dos seus soldados se as famílias pagassem as respectivas despesas! Sabia, no entanto, que tal seria praticamente impossível, dado o estado de pobreza que afectava a população portuguesa. Assim sendo, os três soldados foram a sepultar no cemitério militar de Cuimba, aumentando de cinco para oito as sepulturas aí existentes.
.
.
No dia seguinte, Cuimba acordou sob uma atmosfera pesada. O 670 chorava os seus primeiros mortos e a capela era pequena para acolher tanta dor. Os que conseguiram acesso, viam com olhos incrédulos que dos rudimentares caixões teimava em sair o sangue ainda jovem dos companheiros. Ouviam também o comovido comandante homenagear os que partiram e exortar os que ficaram a levantar a cabeça e a não cometerem erros como o de agora.
No exterior da capela, três viaturas Unimog estavam a postos para encabeçarem o cortejo fúnebre até ao minúsculo cemitério, logo seguidas por outras viaturas transportando a guarda de honra, o comandante, alguns oficiais e sargentos e, por fim, o grosso dos companheiros. A viagem foi curta e dolorosa, não fora o roncar dos motores e quase poderia dizer que era audível o silêncio.

.
.
Três salvas de tiros soaram no momento em que os féretros baixaram à ultima morada.
Estavámos visivelmente consternados, com as lágrimas correndo pela face. Lamentávamos que cinco vidas tivessem sido ceifadas de forma tão imprudente, revoltava-nos também o facto de ser negada às famílias a possibilidade de serem elas a sepultar os seus filhos.
Por esta altura o 670 levava já onze meses de isolamento. Em causa estava a sanidade mental dos seus homens e temia-se que este infausto acontecimento viesse agravar a situação.
.




quinta-feira, 9 de julho de 2009

OS DIAS DE CUIMBA

.
MEMÓRIA
.
ENTRELINHAS DE UMA MEMÓRIA
.
OS DIAS DE CUIMBA 3
.
X --A nossa casa
.
Por vezes faziam um ou outro prisioneiro.
Recordo-me de um casal de negros apanhado na mata. O seu estado geral era deplorável. Foram ambos encarcerados e alimentados, mas o inevitável interrogatório teve de esperar pela chegada de um intérprete, dado que apenas falavam Quicongo (dialecto predominante naquela zona de Angola).
Passado algum tempo “desapareceram”, sem que soubéssemos que destino lhes deram.
.
A Equipa da Escuta.
Da esquerda para a direita e de cima para baixo: Sargento Matos, Capitão Oliveira e Sargento Ramos.
Gaspar de Jesus, Cadaval, Simão, Faria e Curado.
Pereira, João e Minga.
.
Convém lembrar que por esta altura já a Assembleia Geral das Nações Unidas fizera aprovar uma proposta de 40 países para debater Angola. Isso levou a que o embaixador português de então, bem como a restante delegação portuguesa abandonassem a Assembleia. Daí em diante Portugal passou a estar sob fogo intenso de críticas internacionais pelo seu comportamento no conflito angolano, o que levou à reacção de Salazar com a célebre frase do “orgulhosamente sós”.
.
Junto ao Rio Cuílo
.
A chegada do correio e a sua distribuição constituíam momentos de grande agitação no aquartelamento. Em alvoroço, cercávamos o militar mensageiro que, em cima da viatura, lia em voz alta o número dos sortudos destinatários. No final, a alegria de uns contrastava com a tristeza de outros.
.
O dia 28 de Abril de 1965 ficaria assinalado a negro na história de Cuimba.
Disputara-se nessa manhã um jogo de voleibol entre a C.C.S. e a companhia situada na Luvaca. Acabado o jogo, os forasteiros regressavam ao seu aquartelamento quando o desastre aconteceu.
Brutal desastre que vitimaria os cinco ocupantes da primeira das duas viaturas. Entre eles estavam os dois oficiais médicos do Batalhão.

.
Jeep Wilys
.
Na origem deste acidente esteve um dos erros mais cometidos no interior de Angola. Um dos médicos tomou o volante à saída do acampamento e meteu “prego a fundo” pela picada de retorno a Luvaca, provavelmente confiante de que, como era habitual, nada nem ninguém surgiria em sentido contrário.
Mas nessa fatídica manhã, uma Berliet (viatura pesada) saíra cedo para a mata em busca de lenha, regressava agora carregada e foi ao desfazer uma curva que os dois ocupantes viram surgir-lhes pela frente um Jeep em louca velocidade. Sem tempo para reagir, a pequena viatura com os cinco ocupantes enfaixou-se debaixo da Berliet. Em choque, perante tal quadro de horror, os restantes companheiros conseguiram a custo retirar as vítimas dos destroços regressando com elas a Cuimba.
.


Berliet
.
Não mais esquecerei estes momentos de angústia.
Colocados no chão da enfermaria, os homens entraram em agonia, não havia médico (os que tínhamos estavam entre as vítimas) e os enfermeiros faziam o possível por prendê-los à vida até à chegada do helicóptero entretanto pedido. Tudo foi em vão.
Desorientados, com um arrepio a percorrer os nossos corpos ainda jovens, assistimos, impotentes, ao esvair daquelas cinco vidas, enquanto o capelão, de joelhos em terra, vergado sobre os trucidados corpos, ministrava os últimos sacramentos.
Continua

terça-feira, 7 de julho de 2009

OS DIAS DE CUIMBA

MEMÓRIA
.
ENTRELINHAS DE UMA MEMÓRIA
.
OS DIAS DE CUIMBA (2)
.
Construído pelo primeiro batalhão aí estacionado, deveu-se à iniciativa de um futebolista muito conhecido em Portugal, o alferes miliciano Ramin, guarda-redes da Académica de Coimbra.
Não custa acreditar que a Serra da Canda tenha sido privilegiado observatório que permitiu aos guerrilheiros do MPLA vigiarem toda a fase da sua construção e congeminassem algo de muito grave para as nossas tropas.
Assim, começou por ser de festa o dia da inauguração do campo. Prevista estava a disputa de um minitorneio de futebol, o que atraiu a Cuimba militares das outras companhias.
Reza a história que nestas ocasiões é “normal” cometerem-se exageros e descurar a vigilância. Prevendo isso, os “terroristas” (nome por que tratávamos os guerrilheiros dos movimentos de libertação) desceram a serra e, a coberto do capim, entrincheiraram-se nas imediações do campo.
Ao que consta, os nossos militares convergiram em massa para o recinto de jogo. Poucos ou nenhuns terão levado as armas.
Ao invés, os “turras” aproveitaram para descarregar as suas.
Facilmente se imagina os momentos de terror vividos pelos soldados portugueses, que, desprevenidos, encetaram louca correria em busca das espingardas. Mas era tarde...
.

.
O inimigo actuou no sistema “toca e foge”, não se dando a conhecer.
Assim, o dia que se pretendia festivo acabou em tragédia. No terreno ficaram oito mortos e um grande número de feridos. Entre estes estava o próprio Ramin, com uma perna desfeita.
A história de Cuimba registara um outro ataque (Dezembro de 63) cujos contornos desconheço e de que resultaram cinco mortos entre os portugueses.
Esta região era também fustigada por fortes temporais. Durante o tempo que por lá vivi, muitos foram os dias em que ao calor tropical se juntava chuva, vento forte e até trovoada. Uma noite aconteceu que o temporal destruiu as nossas antenas, tornando-se necessária a sua substituição. Contámos para isso com a preciosa ajuda do 670, para nos escoltar até à mata em busca de canas de bambu.
Nesse local vivia uma colónia de pequenos macacos e lembro-me do trauma que senti ao ver os nossos matarem os animais por puro divertimento.
A montagem das antenas foi muito complicada, imprópria para quem, como eu, não estava habituado à dureza desses trabalhos. Valeram-nos o Faria e o João, que, super-habituados a cavar a terra, rapidamente abriram os buracos necessários à instalação das mesmas enquanto se riam dos meninos da cidade.
.

Foto: José Bregieiro - Assinalada com X a casa que habitei
.

Acabado o trabalho e restabelecidas as condições de escuta, retomámos o serviço. As frequências que escutávamos eram maioritariamente do Exército congolês. Interceptávamos também mensagens emitidas pelos correios de Brazaville, Boma, Matádi e outros. Apesar da nossa baixa escolaridade (as mensagens eram em francês), rapidamente aprendemos a diferençar as missivas importantes das mais rotineiras, sendo as primeiras enviadas com urgência para análise nos serviços centrais em Luanda.
O nosso dia-a-dia contrastava, e muito, com o dia-a-dia dos operacionais do Batalhão, dado que a estes competiam a segurança do aquartelamento, das colunas motorizadas, e, pior ainda, as operações de Investigação, Observação e Reconhecimento (I.O.R.). Estas operações tinham lugar uma a duas vezes por semana e revestiam-se do maior secretismo.
Inopinadamente acordados ao raiar do dia, os homens não tinham a menor noção da “tarefa” que lhes ia ser atribuída. Pequeno-almoço tomado à parte, os seus rostos acabrunhados denunciavam angústia e receio; já no regresso da refeição vinham diferentes. Como por encanto, os homens passavam de receosos a eufóricos, mostrando-se agora animados e ansiosos por entrarem em acção.
Não tínhamos dúvidas de que eram “estimulados” para as missões a executar. (Hoje todos sabemos que o Exército português copiara os métodos usados pelo Exército americano no Vietname).
Regressavam um ou dois dias depois, desidratados, rostos da cor da terra, com o olhar vago e as cartucheiras vazias.

.
Continua





domingo, 5 de julho de 2009

OS DIAS DE CUIMBA

MEMÓRIA
.
ENTRELINHAS DE UMA MEMÓRIA
.
OS DIAS DE CUIMBA (1)
.
A pequena povoação de Cuimba acolhia agora a C.C.S. (Companhia de Comando e Serviços) do Batalhão de Caçadores 670, autodenominada FRONTEIROS DA CANDA.
As instalações espalhavam-se ao longo de uma extensão de quatro centenas de metros e eram o exemplo acabado de como é possível acomodar tantos serviços tanta vida, em tão curto espaço.
No lado esquerdo da estrada, sentido São Salvador-Maquela do Zombo, tínhamos a Intendência, ou seja, os armazéns de víveres e bens de primeira necessidade. Da alimentação às urnas e caixões fúnebres, havia ali de tudo um pouco. Possuía também animais vivos e matadouro com competente magarefe. Seguiam-se as casernas dos sargentos, a cozinha, o refeitório, a padaria, a secretaria da unidade, as casernas das praças, os balneários e latrinas, a indispensável cantina ou bar, os geradores de electricidade, a capela e, por último, o campo de futebol.
Do lado direito, no mesmo sentido, surgia a casa do Comando e do SRT (Serviço de Reconhecimento das Transmissões), a que eu pertencia, logo depois a messe de oficiais, o gerador de electricidade do SRT, a oficina auto e, por fim, a enfermaria. Os postos de vigia estavam espalhados ao redor do aquartelamento e em todos havia uma cama. Servia-nos de fundo a imponente Serra da Canda.
Tínhamos consciência de que por ali se acoitava o MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola), logo, havia a possibilidade de os nossos movimentos estarem a ser controlados. Esta é, aliás, uma característica comum na guerra subversiva: o inimigo pode estar muito próximo, pode até ser-nos letal, mas não o vemos.
Os primeiros dias foram naturalmente de adaptação à nova casa, ao tratamento das roupas, à desinfecção de enxergas e camas de ferro, a fim de eliminar os mais que prováveis parasitas.
.

.

A equipa do SRT, vulgarmente conhecida por “escuta”, era constituída por um oficial com o posto de capitão, dois sargentos e oito operadores, divididos por quatro turnos, e tinha por missão pesquisar e escutar as mensagens em grafia (código morse) emitidas a partir do outro lado da fronteira.
Funcionávamos com grande autonomia, dependendo do 670 apenas para as questões de alimentação e disciplina.
Escrever era a actividade em que eu mais ocupava os tempos livres. Escrevia para a mãe, para a namorada e para um ou outro amigo. Apreciava também uns agradáveis mergulhos no rio Cuilo, que distava uns breves quinze minutos, mas cujo acesso só era autorizado desde que nos constituíssemos em grupo devidamente armado.
Cuimba abastecia-se da água altamente ferrosa deste rio e isso obrigava a que a mesma apenas ficasse consumível após passar por um bem elaborado filtro de pedras e areia.
Pese embora o facto de não ser dotado para o pontapé na bola, não me inibia de participar numa ou noutra das muitas peladinhas que semanalmente tinham lugar no campo de futebol. Se a falta de jeito era comum à maioria dos elementos da “escuta”, era largamente compensada pela classe dos companheiros Simão e Carlos Roque (o Cadaval). Simão era um habilidoso e rapidíssimo estremo esquerdo das fileiras do Atlético Clube de Portugal. Dava autêntico show de bola, trocando os olhos aos defesas contrários. Já o Cadaval era um excelente defesa central da equipa do Caldas da Rainha Futebol Clube. No estilo “antes quebrar que torcer”, nunca virava a cara à luta. E se acontecia a bola passar por ele, era certo que o adversário não passaria. A forte amizade que ainda hoje mantemos só encontra paralelo na forma coriácea como cortava as jogadas dos adversários. Acredito que este terreno de jogo tenha sido palco de muitas alegrias e contribuído para o cimentar de fraternais amizades, mas a sua história ficará para sempre ligada ao maior ataque sofrido em Cuimba.
.
continua


sábado, 4 de julho de 2009

OS DIAS DE CUIMBA

MEMÓRIA
.
ENTRELINHAS DE UMA MEMÓRIA
.
OS DIAS DE CUIMBA
.

Foto: José Bregieiro
.
A PARTIR DE AMANHÃ RETOMAREI A PUBLICAÇÃO DAS MINHAS MEMÓRIAS DE
.
ANGOLA
.
A POSTAGEM DE OS DIAS DE CUIMBA SERÁ NOS DIAS PARES, DEIXANDO OS DIAS
.
IMPARES PARA A FOTOGRAFIA
.
.
Foto: José Bregieiro


quinta-feira, 16 de abril de 2009

MEMÓRIA - 4 (8)

MEMÓRIA - 4 (8)
.
Entrelinhas de uma Memória
.

Fonte: Wikipédia
.

Felizmente tudo correu bem e por volta da meia-noite chegámos ao destino. Lembro-me bem de como foi gratificante libertar-me do camuflado imundo, do banho de chuveiro e de cair na cama que me foi destinada. Acordaram-me no dia seguinte à hora do almoço e foi com surpresa que vi um outro companheiro, António Coelho, deliciar-se com uma pratada de esparguete com gordura de carne. Era a primeira vez que o via comer o que quer que fosse fornecido pelo Exército, quer em Portugal quer em Angola. E ele, meio a brincar, meio a sério, justificou-se: - Olha bem à tua volta. Vês alguma alternativa?
Correspondi ao desafio e percebi: estávamos, de facto, totalmente isolados!
.
Foto: Wikipédia
.
Confesso que foi emocionante para mim encontar nas minhas buscas pela Internete a casa onde vivi durante seis meses.
Tem data de 1971, seis anos depois da minha saída. Notam-se algumas melhorias. Parece ter mais árvores e plantas decorativas ao redor da casa.
Ao fundo pode ver-se a "famosa" Serra da Canda.
.
Foto : Wikipédia
.
Já esta fotografia aérea da Povoação de CUIMBA aparece sem data, mas não me custa admitir que se trate de uma fotografia de 1961 logo após a sua reconquista.
Dá para perceber que os terrenos em redor ainda estão cultivados, em 1965 estavam cobertos de capím! As contruções que se vêem sobre o lado direito e que me parecem ser de apoio à agricultura, já não existiam no meu tempo. Não se vê ninguém na Povoação e a Capela (ultima casinha ao fundo) está sem telhado...
Recordo que esta Povoação foi ocupada aquando da eclosão da Guerra por negros que armados de Catanas e Armas rudimentares chacinaram todos os Colonos, bem como os trabalhadores negros fiéis aos seus patrões, espetando as suas cabeças em estacas ao longo do caminho. Ao que consta, alguns dos guerrilheiros praticavam o canibalismo. Carne humana terá sido encontrada em arcas salgadeiras.
Algum tempo depois, o Exército Português apoiado pela Força Aérea reconquistou CUIMBA. Encurralados, os guerrilheiros refugiáram-se na Capela, pensando que assim escapariam às bombas dos aviões portugueses... nenhum sobreviveu!
Em 1965 já tinha sido colocado na Capela um telhado em Zinco.
.
Nota: Assinalada com X a casa que habitei.
.
A seguir (se não me fenecer a coragem), Os Dias de Cuimba

quarta-feira, 15 de abril de 2009

MEMÓRIA - 4 (7)

MEMÓRIA - 4 (7)
.
Entrelinhas de uma Memória
.
São Salvador do Congo - Fonte Wikipédia
.

Substituída a escolta (1), de novo a coluna se pôs em marcha rumo a São Salvador do Congo, onde chegaríamos sem novidade já ao fim do dia. São Salvador era uma cidade de fronteira com alguma dimensão, duas ou três centenas de habitantes maioritariamente negros, uma ou outra loja de comércio, dois ou três pequenos restaurantes. E era aí que se encontrava o Comando Militar de todo o sector fronteiriço.
.


Fonte: wikipédia
.
.
Aproveitámos para repousar um pouco e tomar uma refeição quente. A informação de que só retomaríamos a marcha na manhã do dia seguinte seria felizmente alterada. E, agora escoltados pela tropa de São Salvador, rumávamos a Cuimba.
A decisão foi muito agradável para nós, por sermos poupados a mais uma noite ao relento, mas (saberíamos depois) revestiu-se de vários perigos. Porque a ligação São Salvador-Maquela do Zombo era das mais fustigadas pelo inimigo, que com frequência aí colocava minas anticarro, mas também porque o clarão provocado pelos faróis das viaturas, serpenteando a mata, iluminava a noite, denunciando a nossa presença ao longo das seis dezenas de quilómetros, tornando-nos assim num alvo demasiado fácil.
.
(1) Este sistema de rendição das escoltas estaria na base de muitas das baixas entre as tropas portuguesas. Ao inimigo bastava tão-só aguardar pelo regresso, colocar minas antipessoal num troço da picada, matar o condutor da primeira viatura e ver como os nossos militares morriam ao cair nas minas. No fim, vinham para o tiro de misericórdia nos que ainda apresentassem sinais de vida.
.
Continua





terça-feira, 14 de abril de 2009

MEMÓRIA - 4 (6)

MEMORIA - 4 (6)
.
Entrelinhas de uma Memória
.

O ribombar dos trovões era assustador, os raios caíam por todo o lado. Iríamos passar a noite ali, mas não tínhamos onde nos abrigar. Precipitámo-nos para as bagagens e vestimos os impermeáveis. Como a nossa viatura não tinha cobertura, refugiámo-nos debaixo dela, mas foi por pouco tempo, pois a chuva diluviana depressa transformou o local num pequeno riacho.
De novo em cima da viatura, aguentámos estoicamente todo aquele temporal, que durou várias horas. Ao raiar do terceiro dia de viagem, éramos pouco mais que farrapos humanos. Não tínhamos sede, mas estávamos esfomeados e já pouco nos restava para comer. Encharcados até aos ossos, reiniciámos a marcha. Com o avanço da manhã, o sol voltou a raiar, contribuindo para recobrar o pouco ânimo que ainda nos restava.

.

.
Fonte Wikipédia
Chegámos ao acampamento CASA DA TELHA por volta das duas horas da tarde. O estômago reclamava por comida, mas a nossa atenção foi despertada por um coro de vozes que vociferava junto da cerca que delimitava o aquartelamento. Aproximámo-nos e vimos que um grupo de soldados apelidava de “Boi” alguém que integrava a nossa coluna. Intrigados, perguntámos o porquê daquela atitude. Apontaram-nos então o condutor de uma das viaturas civis, que, segundo eles, se fazia acompanhar da esposa, e que mais uma vez a tinha entregue aos “cuidados” do comandante do Batalhão, recuperando-a aquando da viagem de retorno a Luanda. Olhámo-nos meio incrédulos. Longe estávamos de imaginar que havíamos tido a honrosa companhia de uma senhora em tão difícil viagem.
O estômago continuava a queixar-se, mas ninguém parecia incomodar-se com isso. Valeu-nos a diligência do sargento Matos, que “desenrascou”, junto do vagomestre do aquartelamento, sanduíches e alguma cerveja.
.
Continua

segunda-feira, 13 de abril de 2009

MEMÓRIA - 4 (5)

MEMÓRIA - 4 (5)
.
Entrelinhas de uma Memória
.
Passámos por um ou outro aldeamento sem nos determos. Retive o nome de um deles: TOMBOCO. Quando o dia chegou ao fim estávamos num pequeno e desactivado aquartelamento em cuja entrada se podia ler QUIENDE. Entrámos, dois soldados vigiavam o pouco que restava. “Precisamos de água”, dissemos. Foi-nos respondido que não havia, porque a tropa ali estacionada havia abalado na véspera, levando tudo com ela. Já desesperávamos quando reparámos em dois pequenos bidões encostados a um canto. “Têm água lá dentro?”, perguntámos. “Sim, tem, mas não está em condições. Fomos buscar ao rio aqui próximo. Está barrenta, tem chovido muito por aqui”, disseram-nos. Já não ouvimos a ultima frase...
.

Fonte: Circulo de Leitores
.
Levantámos o mais pequeno dos bidões e, enquanto quatro de nós o seguravam, os outros bebiam avidamente pelo orifício entretanto destapado. E se um ou outro borboto de terra se fez notar ao passar pela garganta, isso foi pormenor sem importância...
O dia estava no fim e dali em diante água era o que não nos iria faltar.Não tinha fome, mas decidi que o melhor seria juntar a toda aquela água uma bucha de pão e atum. Enquanto comia, fui observando o tamanho da coluna. Eram mais de uma dezena de camiões civis que iam abastecer de bens de primeira necessidade as povoações de São Salvador do Congo e Maquela do Zombo, misturados com as mais variadas viaturas militares de transporte, a que se juntavam as viaturas da escolta, formando uma enorme “serpente” que aos poucos se ia tornando menos visível.
O dia chegara ao fim, o céu apresentava nuvens ameaçadoras e pouco depois abatia-se sobre nós uma violenta tempestade.
.
Continua


domingo, 12 de abril de 2009

MEMÓRIA - 4 (4)


MEMÓRIA - 4 (4)
.
Entrelinhas de uma Memória
.
A primeira pausa deu-se na bem conhecida Fazenda Tentativa, famosa por ter sido uma das maiores produtoras de café em toda Angola. Era agora sede do Comando do Batalhão aí estacionado. Corremos para a cantina a fim de saciar a sede. Logo aí fui reconhecido por um soldado que era meu vizinho em Portugal. Tinha a alcunha de “Batuca” e jogara futebol nos juniores do Boavista. Fez-me algumas perguntas sobre a nossa santa terrinha e apresentou-me aos colegas de ocasião, ao mesmo tempo que me cravava duas rodadas de cerveja, deixando-me os bolsos um pouco mais leves.
.

Fonte: Circulo de Leitores
.
Nova escolta e de novo pela mata adentro debaixo de um calor escaldante. A marcha era lenta, uma nuvem de pó toldava os nossos olhos e alterava a cor da pele e camuflado para um castanho avermelhado. De vez em quando a coluna parava para remover uma ou outra árvore atravessada no caminho. Tudo isto fazia com que a sede se tornasse insuportável. Atormentado por ela, remexi por toda a viatura, mas a única água que encontrei estava dentro de um bidão a ferver. Destinava-se ao motor. Não resisti e bebi-a...
.

Continua

MEMÓRIA - 4 (3)

MEMÓRIA - 4 (3)
.
Entrelinhas de uma Memória
.
.
Cinquenta e um escudos por uma refeição que em Luanda não custaria mais de trinta. Esta era a forma que os colonos portugueses encontravam para “agradecer” à tropa portuguesa o facto de estarem a seu lado, pondo em risco, se preciso fosse, a própria vida para os defender. Pela também exorbitante quantia de vinte e cinco escudos pernoitámos numa camarata infestada de mosquitos, mas, como a alternativa era dormir em cima ou por baixo das viaturas, aceitámos. Seria uma noite de inferno, como o atestaram as dezenas de bolhas espalhadas pelo corpo em resultado de outras tantas ferroadas dos terríveis insectos, provocando um mal-estar colectivo que seria em parte amenizado por um retemperador banho matinal.

Fonte: Circulo de Leitores

Manhã cedo, reiniciámos a viagem. As estradas em breve desapareceriam, para dar lugar às famosas “picadas” (caminhos de montanha em terra batida). Interiormente, todos tínhamos noção de que as grandes dificuldades surgiriam a partir daí.
Os elementos da escolta agora responsável pela nossa segurança fizeram uma vistoria geral pelas viaturas. Quando se aperceberam de que empunhávamos a velha espingarda MAUSER de tiro de repetição (“vedeta” da Segunda Guerra Mundial ), nem queriam acreditar…
Avisaram-nos logo que, se algo acontecesse pelo caminho, estávamos proibidos de disparar, uma vez que todos os operacionais empunhavam a espingarda automática G3, cujo “cantar” conheciam bem, e se outros disparos soassem seriam identificados como fogo inimigo. (De pouco me serviu toda a azáfama em busca da MAUSER esquecida...).

Fonte: Circulo de Leitores

Continua

sexta-feira, 10 de abril de 2009

MEMÓRIA - 4 (2)

MEMÓRIA - 4 (2)

Entrelinhas de uma Memória

Ultrapassado o percalço, iniciámos o primeiro dos três dias da nossa viagem devidamente escoltados. Acomodadas na bagagem iam algumas (poucas) latinhas de atum em conserva, duas ou três Cucas (cerveja angolana) e algum pão (casqueiro), tudo adquirido de véspera. Era a nossa primeira incursão pelo Norte de Angola e mal podíamos imaginar as dificuldades por que iríamos passar.


Fonte: Circulo de Leitores

O dia despontara ameaçando com temperaturas altas, previsão que confirmaríamos, pois o calor aumentava ao ritmo do avançar das horas, fazendo com que todo e qualquer líquido rapidamente se tornasse em “espécie há muito extinta”.
A jornada desse dia viria a terminar em Ambrizete. Quase não tínhamos tocado no pão ou nas conservas, pois os nossos corpos transpirados apenas pediam água. Foi por isso enorme a confusão gerada à chegada em busca do precioso líquido. Saciada a sede, conseguimos ainda jantar num dos restaurantes da cidade: bacalhau cozido com batatas, regado com azeite de segunda, e uma cerveja fresca, um luxo que viríamos a pagar bem caro.

Ambrizete - (N'Zeto) Fonte: Circulo de Leitores

continua

5ª TERTÚLIA A 02 DE JULHO

5ª TERTÚLIA A 02 DE JULHO
COM A ARTE NO OLHAR